O incômodo que se vire
Sobre amar até a dor que causamos
Já não sei o quanto eu perdi por tentar não incomodar ninguém. Pra mim, é triste.
Queria não me importar com tudo que construí até agora e, assim, não ter que lidar com as faíscas que seriam geradas por eu fazer o que quero fazer.
Não apenas porque quero, mas porque acredito.
A vida adulta é isso. Já me senti mais jovem. Mais irreverente, revolucionário. Mais nem aí.
Tenho tentado fazer muito. Ao mesmo tempo penso demais. Muitos passam pelo mesmo. Pra mim, não é uma força nem uma fraqueza. É só parte do que acontece na cabeça das pessoas ao redor do mundo, e eu acabo sendo parte dele.
Mas hoje existem mais do que eu deixo de fazer do que o que eu faço querendo fazer (isso fora do meu ofício, claro, porque sou comediante, então se eu fizesse isso sem querer eu estaria completamente fora do eixo), então me seguro muito e faço muita questão de não ultrapassar certos limites em todos os sentidos.
Então, não vou pedir alguma oportunidade porque tive o mínimo de abertura (e tive ali uma chance casual de introduzir uma conversa desse tipo) com quem eu valorizo o trabalho e gostaria de trabalhar junto, simplesmente porque, se fosse ao contrário, não gostaria que fosse assim comigo.
Sigo nessa odisseia, conhecendo o que dá das pessoas e me esforçando para não ultrapassar algum limite, seja ele vindo de mim, da outra pessoa ou até dos outros que são a intersecção entre eu e o outro. Às vezes há muito a perder.
Nem sempre é sobre um ou o outro. Tem vezes que outras pessoas entram na conta. Isso que dificulta.
Seria mais simples se pudéssemos não ligar para os outros quando estamos conhecendo alguém. Sem a necessidade de se importar com o passado, o que foi feito, o que se sabe sobre.
Se tudo que eu fizesse fosse baseado no que sinto que é o melhor para mim, sem incomodar ninguém, no máximo ouvindo um não de alguém e seguindo minha vida em frente.
Mas não é tão simples assim. A vida de adulto coloca outras variáveis no meio. E tudo bem. O jogo é esse e cabe a cada um jogar o seu próprio.
É que tem gente que não pode saber. E a convivência? Alguns não vão gostar. Pra que? Não faz isso. Vai fechar umas portas.
Quem dera só dependesse do que eu sou capaz, independente de com quem eu esteja.
Cada dia que passa fico mais confuso. E eu, otário, gosto disso.
Tento ser minimamente sensato no que vivo mundo afora. Mas infelizmente não controlo o que sinto.
“Ah, mas seus sentimentos vêm do seu cérebro, claro que você consegue controlar”.
Tranquilo, então. Transmuta a mente no meu corpo e depois a gente conversa.


